segunda-feira, 26 de julho de 2010

A MULHER QUE NÃO ESQUECE

A MULHER QUE NÃO ESQUECE

Tem uma mulher nos Estados Unidos que se lembra de tudo o que lhe aconteceu em cada dia de sua vida. Por efeito de uma anomalia cerebral, ela recorda com exatidão de qualquer coisa que fez desde que tinha 14 anos, dia por dia, detalhe por detalhe.
- É horrível! – conta, argumentando que as lembranças pesam demais. “Minha vida inteira passa pela minha cabeça todo dia e isso está me deixando louca”, desabafa a americana, que tem 44 anos e é capaz de dizer o que comeu no almoço há 20 anos ou a qual programa de TV assistiu num determinado dia do mês e do ano que seu interlocutor escolher.
O curioso é que essa memória extraordinária só serve para registrar fatos que ela presenciou ou viveu. A americana é incapaz de decorar uma poesia e sequer foi uma aluna destacada na escola. Mas lembra até mesmo das coisas que gostaria de apagar da sua memória, como as decepções, as brigas e as perdas afetivas.
Deve ser horrível mesmo ter um cérebro desprovido do mecanismo de esquecimento, que funciona como uma espécie de lixeira de nossas percepções. Tem muita coisa que a gente precisa deletar da lembrança, tanto para abrir espaço às novidades quanto para evitar a tortura permanente das situações repetitivas. Esquecer, muitas vezes, é um alívio. Os adeptos da meditação até fazem exercícios especiais para livrar a mente de entulhos inúteis.
De que vale possuir uma imensa biblioteca cerebral se não podemos selecionar os livros que queremos consultar ou que nos dão prazer de ler? Pelo que conta a senhora das lembranças involuntárias, todas as suas obras estão arquivadas por data – e a maioria trata de coisas sem importância. Por isso, talvez, tenhamos nascido com a faculdade de esquecer. Nossa mente, felizmente, é seletiva. Se soubermos administrar bem nossas emoções, seremos capazes de excluir as mesquinharias e guardar as preciosidades. Claro que não é tão simples assim: lembrar maus momentos, muitas vezes, pode ser uma questão de sobrevivência. Foi graças ao seu cérebro prodigioso para lembrar de fatos passados, para fazer a ligação entre eles e para utilizá-los no planejamento do futuro que o homem se impôs aos demais animais.
As ocorrências verdadeiramente relevantes da vida, ainda que tenham significado apenas para nós, serão lembradas sempre porque escapam do controle do cérebro e se abrigam no coração.
Quem esquece um primeiro beijo de amor, um abraço carinhoso do pai ou o sorriso de uma criança protegida e acarinhada? O que menos importa, nestes casos, é lembrar o dia,o ano ou a hora de tais acontecimentos.

Nilson Souza – Zero Hora – 24/07/2010

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